“Famílias estão cozinhando em fogão a lenha porque não conseguem comprar o botijão de gás”

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Localizada no bairro mais populoso de Belém (PA), a unidade Casa de José, do Lar Fabiano de Cristo, atende 170 crianças e adolescentes, entre 6 e 17 anos, que vivem em situação de vulnerabilidade social.

A situação das famílias beneficiadas pela instituição é bastante precária. A maioria reside em áreas que não possuem saneamento básico e muitas também não têm um emprego formal.

Para Mariza Lima, assistente social do Lar Fabiano de Cristo, a vulnerabilidade social dessas famílias reflete diretamente no comportamento e interação das crianças, deixando evidente as desigualdades sociais: “É notória a diferença, as crianças que estão em extrema vulnerabilidade e risco geralmente apresentam um comportamento mais arredio, quieto e não participativo ou até mais agressivo. Quando a criança está em alguma situação de vulnerabilidade ela reage diferente nas atividades”, explica.

A situação, já emergente, se agravou com a chegada da pandemia no ano passado.

“Essas famílias, em sua maioria, são trabalhadoras que não têm seus direitos assegurados. São famílias vulneráveis. Especialmente depois do término do auxílio emergencial, nós notamos um aumento da procura por alimentação, por complementação alimentar, é o leite ou o mingau da criança que não estão conseguindo garantir e isso tem se intensificado a cada semana. Algumas famílias estão cozinhando em fogão a lenha, com carvão, porque não conseguem comprar o botijão de gás”, comenta Mariza.

A unidade Casa de José é uma das organizações sociais selecionada para receber as doações de cestas básicas, realizadas pela Fundação Abrinq por meio da campanha Não deixe a fome matar mais que o Coronavírus.

Para organizar e avisar as datas das entregas, a instituição criou um grupo no WhatsApp com todas as famílias que precisam de apoio e, consequentemente, das cestas básicas. A medida foi a solução encontrada para evitar a aglomeração de pessoas na hora da retirada e, assim, diminuir a exposição de todos os envolvidos.

Porém, Mariza conta que nem todas as famílias possuem acesso à internet para acompanhar o grupo e, nesses casos, a colaboração da comunidade tem ajudado: “O grupo serve como a nossa principal forma de aviso, porque aquelas que não têm internet, mas possuem um vizinho que têm, são avisadas. Eles vão se comunicando muito no boca a boca também”, explica.

As entregas estão sendo realizadas diariamente com espaçamentos de horários entre uma família e outra e, para evitar qualquer possível confusão ou desentendimento entre os familiares, a retirada está sendo restrita para o adulto responsável pela inscrição da criança ou do adolescente na organização.

“Nós sempre priorizamos que o responsável venha buscar o alimento, porque as vezes vem outro parente e isso acaba gerando algum conflito entre quem vai ficar com a cesta”, relata Mariza.

 

Solidariedade que alimenta e proporciona esperança de dias melhores

Entre os responsáveis autorizados a pegar a cesta, está Aline*, mãe do Guilherme*, de 14 anos, que frequenta a instituição, e do Matheus*, de 7 anos. Antes da pandemia, Aline trabalhava com serviços gerais como limpeza. Não era um trabalho fixo, mas conseguia afazeres recorrentes que ajudavam no sustento da casa. Seu marido também não era registrado, no entanto, conseguia constantemente serviços como ajudante de pedreiro. Raramente a família recorria à organização para pedir ajuda.

“Eram raros os momentos em que ela procurava a instituição pedindo apoio. Mas com a pandemia eles ficaram mais em casa, não conseguiram trabalhar como antes. Ela só conseguia diárias esporádicas, ficou bem mais complicado para a família”, menciona.

Aline está entre as famílias que não possuem acesso à internet em casa e quando ficou sabendo que poderia buscar a cesta, estava realizando um trabalho pontual que conseguiu no dia para limpar uma residência.

“Ela disse que precisava mandar o marido, porque estava em uma diária e eles não tinham o que comer. Ela ia conseguir um dinheirinho, mas não ia suprir. Ela estava trabalhando, mas a família estava em casa sem o que comer”, lembra.

Prontamente o Lar Fabiano de Cristo, compreendendo a situação de emergência, autorizou a retirada da doação pelo marido. A ação garantiu o direito de se alimentar para Aline, seus filhos e o restante de sua família.

Aline mora na casa dos sogros e além das dificuldades enfrentadas pelo casal para garantir alimentação à família, ela constantemente se sente pressionada a ajudar em casa, por morar de favor e pelo fato de seu filho mais velho ser fruto de um relacionamento anterior.

“Tem outros agravantes e outros conflitos que circulam ali [na família]. Ela sente a necessidade de contribuir, caso contrário é cobrada. Um dos filhos não é do companheiro e a cobrança acaba sendo maior em cima dele também”, explica Mariza.

“Nós incluímos ela para receber as cestas pensando também nesses conflitos familiares que relatava. Ela sente esse peso, mas não consegue pensar em sair dessa relação, porque não tem estrutura financeira e tem a dependência emocional”, completa.

A organização está destinando doações de cestas básicas para 104 famílias que relataram precisar de ajuda. Isso significa que mais de 400 pessoas, sendo mais de 200 crianças e adolescentes, estão recebendo apoio para continuarem tendo acesso ao básico neste momento.

“A demanda das famílias agora é por alimento, material de higiene, por garantia de sobrevivência e as cestas acabam representando isso. Mesmo que não durem o mês inteiro, porque algumas famílias são bem grandes, elas representam um suporte, um apoio e um sentimento para essas famílias de que não estão sós, que de alguma forma elas são amparadas por alguém”, diz.

“Para nós, a doação da Fundação chegou como um alívio, porque estávamos ajudando uma ou outra família com recursos próprios, mas saber que vamos poder contemplar todas é um alívio. O atendimento social não parou em nenhum momento e temos escutado a cada dia as necessidades delas”, finaliza Mariza.

 

Campanha Não deixe a fome matar mais que o Coronavírus 

Em maio de 2020, dada as circunstâncias, a Fundação Abrinq criou a campanha Não deixe a fome matar mais que o Coronavírus para arrecadar recursos para a compra e doação de cestas básicas a famílias impactadas pela pandemia.

Com a alta na demanda e urgência por apoio, a Fundação decidiu estender a campanha até abril deste ano para conseguir ajudar e suprir a necessidade de mais 1.730 famílias, durante três meses, que são atendidas por sete organizações sociais parceiras e estão em situação de risco e vulnerabilidade social no Norte e no Nordeste.

Saiba mais sobre a campanha e ajude uma família a se alimentar. Clique aqui para doar uma cesta básica.

 

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* Nomes alterados para preservar a identidade dos envolvidos.



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