Sonhos roubados pelo Trabalho Infantil

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Com pouco mais de 30 mil habitantes, Minas Novas é uma cidade localizada no interior de Minas Gerais. No estado, mais de 320 mil crianças e adolescentes trabalham. Em Minas Novas não seria diferente. A cidade sofre com diversos tipos de trabalho infantil, os mais comuns são o doméstico e o rural, mas é possível encontrar crianças vendendo diversos produtos nas ruas, desde picolés até panos de chão.

Para combater e prevenir que mais crianças na cidade sejam expostas a essa realidade, a Associação Minasnovense de Promoção ao Lavrador e a Infância da área Rural criou o Projeto Melhor de Mim.

Com o objetivo de resgatar as crianças que eram expostas ao trabalho infantil, o projeto promovia atividades no contra turno escolar, oferecendo alternativas sócio educativas para as crianças e os adolescentes, assim, eles podiam estudar em um período e fazer alguma oficina no outro. Além de trabalhar com as famílias, conscientizando-as sobre o tema.

“No início, tínhamos muitas crianças que não participavam, pois os pais falavam que eles tinham que trabalhar mesmo. Mas depois, com o projeto eles foram mudando essa visão. Recebemos relatos de pais que falavam que trabalharam na infância e, por isso, não tiveram a oportunidade de estudar, e que não queriam que os filhos passassem pela mesma situação”, conta a coordenadora da associação, Vanda Ferreira.

O projeto atendia cerca de 150 crianças, e graças ao apoio da Fundação Abrinq, passou a beneficiar 367 crianças e adolescentes, como é o caso da Rayula.

Com apenas 9 anos, a pequena Rayula já precisava cuidar de seus irmãos mais novos para que seus pais fossem trabalhar e garantir o sustento do lar. Passava o dia olhando eles, dando mamadeiras e cuidando da casa, sem tempo para brincar e ser criança.

Aos 11 anos, precisou ajudar a sua mãe na roça para que a renda familiar desse conta de suprir todas as necessidades da família. Junto com a mãe, Rayula cortava e cozinhava mandiocas para a produção e venda de farinha. Com a rotina puxada, era muito difícil conciliar os estudos, por isso, suas notas na escola começaram a cair.

“Ela já ajudava a mãe dela em casa e na roça. Querendo ou não, as crianças estavam lidando com materiais cortantes e Rayula era uma delas”, diz a coordenadora.

Felizmente, essa realidade mudou assim que ela começou a participar do projeto Melhor de Mim. Após acompanhar diversas atividades e palestras, Rayula e sua família passaram a entender as consequências que o trabalho infantil causa para o desenvolvimento da criança, e assim, Rayula pode se dedicar aos estudos.

“Ela foi para a escola, concluiu o ensino médio e o curso técnico em agropecuária. Ela é uma menina, dentre muitas que deu certo”, completa Vanda, com alegria e orgulho ao relembrar a história.

No entanto, nem todas as crianças conseguem parar de trabalhar, como aconteceu com João*, que participou do projeto desde os 2 anos. Com o tempo, os professores começaram a estranhar o cansaço extremo do menino e o baixo desempenho na escola. Até descobrirem que com 11 anos ele já precisava resolver todos os problemas de casa.

Sua mãe tinha necessidades especiais, que a impediam de trabalhar. Para garantir que não faltasse nada em casa, seus irmãos começaram a trabalhar logo que completaram 18 anos, e João se tornou o responsável por todas as demandas domésticas, inclusive pagar as contas e fazer compras.

“Se ele ajuda nas tarefas de casa, isso não configura trabalho infantil, como por exemplo, ele arrumar a cama dele, lavar a louça que sujou ou ajudar na organização. A partir do momento que ele passa a ter responsabilidades por essas tarefas e passa a fazê-las sozinho, aí sim passa a ser considerado trabalho infantil”, explica Vanda.

Mas com a esperança de um futuro melhor, ele continuou participando do projeto, porém suas responsabilidades não diminuíram. Frequentando a escola há cada 15 dias, a avó cuidava da mãe para que ele pudesse estudar, como morava longe, cerca de 40 minutos de distância, não podia ficar muito mais do que isso com a filha.

“Ele continuou participando do projeto, mesmo assim tinha que assumir tudo na casa dele, as responsabilidades continuavam as mesmas. Contudo, ele conseguiu melhorar bastante o seu desempenho na escola”, relata a coordenadora.

Ao completar 18 anos, João seguiu o mesmo caminho dos irmãos e foi trabalhar na cidade grande.

“É tão bom quando vemos que eles estão na época de estudar e fazem um curso técnico ou aqueles que têm uma oportunidade e conseguem fazer uma faculdade, mas infelizmente a realidade da maioria não é assim, muitos completaram 18 anos e voltaram a trabalhar, como aconteceu com João”, finaliza Vanda.

O projeto, infelizmente, encerrou, mas a organização continua promovendo ações e beneficiando crianças e famílias que enfrentam a mesma realidade de Rayula e João.

Acreditamos que oferecer uma alternativa para as crianças e para a família seja uma forma de combater essa realidade que impacta na vida de mais de 2 milhões de crianças e adolescentes pelo Brasil.

* Nome alterado para proteger a identidade da criança.

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